quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

gosto das coisas desimportantes como esse guardanapo de papel da loja onde tomo agora meu café gosto de pedras de sementes de cascas gosto da sacolinha onde vem o presente das folhas secas que ficam soltas pela rua dos sachês de amostra grátis dos pedaços de pau jogados nas caçambas gosto do celofane dos arranjos de flores dos arranjos de flores nas mesas do buffet gosto de cartas de baralho especialmente do coringa e do ás de copas gosto dos guardanapos de papel das lojas onde tomo café. 
essas desimportâncias quando as possuo fazem de mim a rainha de um castelo de nadidades e sinto-me em paz por existirem as coisas sem valor.
 
    18h59.pão.de.açúcar.são.bernardo.de.guimarães
Foto de o caderno de escrita.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

memórias de humanidade [gênesis]

nasceu, no tempo das luzes, um projeto de mim, a massa reconhecida agora corpo inaugurava-se em vísceras visíveis; amostragem necessária e suficiente à elucidação de todos os males e afastamento de feitiçarias. a cabeça guardava a alma e era o lugar digno da coroa. naqueles dias nascíamos estes homens que agora estamos e nunca mais haveríamos de deixar de sê-los, não deixar morrê-los. por certo levaríamos o estandarte sempre adiante. 
há séculos passados, revistos e imaginados, traçamos as linhas sobre as quais produzimos nossa própria biografia. éramos homens. que é o homem? cem dias se passaram entre um bilhão de anos.
cem dias se passaram e eu fui fabricada artesanalmente quando acordados das trevas visamos narcisos a face humana. carrego acima dos membros a digna cabeça, o instrumento que nos elevaria acima da natureza e nos daria a verdade. eu sou, portanto, um bem maior que as feras, as ervas e pestes ou as rochas que recebem as ondas do mar e não reagem, eu sou um homem! um projeto de mim nasceu. era o oitavo dia.
depois, os dias passados, o corpo dado era conhecido, medido; sabiam tudo. (nestes dias a alma - se há - evacua-se nalgum espaço imaginário). este corpo não é oferecido é violado. violamo-nos com mútua permissão, embora não soubessemos do ato nem do consentimento. nos deixamos conduzir - e o nome desta sombra nem chega a ser cegueira. 
ainda que eu não permitisse que meu corpo fosse mostrado, sem saber eles observavam aquilo tudo que podia existir por debaixo da pele e cada segundo da matéria nomeada corpo era detalhado em inumeráveis listas de consulta.  tudo agora eu sei de mim quando sangro, durmo, cuspo, levito. invasões em nome da santa fé conhecedora, aquela que nos livrou da morte, da dor, do frio e de toda sorte de feitiçarias.
com as palavras que foram inventadas, aramos campos inteiros com sementes aromáticas e sedutoras. este jardim será sempre necessário entre nós e para sempre necessárias as palavras que dele brotam. um dia minha carne será alimento para seus vermes, mas as palavras serão as mesmas. o corpo exposto, o palavrário discursório explicativo, ser homem era ser isto, de um modo funcionante. e era magnífico que eu soubesse.
nossos desejos desfilando sob holofotes e todos nós deambulávamos tão exaustos que já não nos dávamos ao pulsar do corpo em ânsia de jorro. a vida era concreta demais para algo de extasiada expressão. o espasmo era vapor que não cabia. por isso todas as manhãs passamos a ser acordados antes que o dia fosse, para então darmos reinicio ao concerto de nossa gloriosa conquista de sermos humanidade.
mas esta coisa que, como certeza de ser, em mim se enraizou não era de mim nascida nem em mim existida como que por sempre sem início. tudo foi invenção! e o mundo que me fizeram ver, a coisa que aprendi a entender que eu era irrevogavelmente constituída, num mundo inevitável, este predestinado resultante dos outros dias dos homens vividos a muito antes de mim, tudo era vaidade da cabeça que guardava o espírito e eu estava sem uma porta para arriscar o salto. pois quando foi que me tornei humano? isto seria substância que eu pudesse declarar sobre eu mesma? quanto mais sabia de mim mais me distanciava. algum dia chegaria a visar o que é a coisa homem?
eu não procedia bem aos mecanismos de ser gente.
e assim, da anamnese à diagnose meu relato toma forma e os protocolos vigentes prescrevem a eternidade, eu contudo vejo o fim. ei de morrer de muito ter vivido depois de gasto o corpo prolongado no tempo e oprimido no espaço, corpo eficiente, botolizado, reificado, avançado, desoncolizado, vitalizado, ei de morrer depois de muito ter vivido e gasto o corpo e me cansado de ser este homem.
no ano vinte e sete mil do rei sem fé e sem cor nos tornamos especialistas na aniquilação de nós mesmos e o espírito passeava pela face da terra e do abismo.
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sábado, 3 de maio de 2014

conto de nadas

[era uma vez três. uma maria de alice, a segunda maria de marta e a outra maria de si. um dia maria de alice comprou um barco e nunca mais se aportou. depois do fato, maria de marta, toma remédios para dormir todas as noites, após secar a pia da louça lavada, seca e guardada. por fim maria de si, porque ficou sem dinheiro, arranjou um emprego de boa remuneração e depois de alguns meses aceitou esta felicidade doce e auto-sustentável. 
após separadas todas elas, eu que fiquei sem ter o quê saí para fazer as unhas.]

e felizes vivemos todos...para sempre.